sábado, 1 de dezembro de 2012

RESUMO DO CAPÍTULO III DO LIVRO "FREUD E O INCONSCIENTE": O DISCURSO DO DESEJO A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS (TRAUMDEUTUNG)

·         Entre a elaboração do projeto e A interpretação de sonhos acontece, porém, um fato da maior importância para o desenvolvimento futuro da psicanálise:
o   A descoberta do complexo de Édipo
·         Freud não fala ainda de “Complexo de Édipo”: este termo só aparecerá em 1910; o que ele faz nessas cartas a Fliess é uma referência à lenda de Édipo como um modelo da relação das crianças com os pais, sendo que, nessa época, ele não fazia ainda distinção entre a forma positiva e a forma negativa da situação edipiana.
·         “A interpretação dos sonhos”, escreve Freud: “é a via real que leva ao conhecimento das atividades inconscientes da mente”, e não apenas isso, mas também é o melhor caminho para o estudo da neurose.
·         Freud chega a dizer a diferença entre a neurose e a saúde vigora apenas durante o dia, não se entende à vida onírica.
·         Uma pessoa sadia é virtualmente um neurótico, só que os únicos sintomas que ela consegue produzir são os seus sonhos.
·         Assim, os sonhos não são apenas a via privilegiada de acesso ao inconsciente, ele são também o ponto de articulação entre o normal e o patológico.
·         Sobre a interpretação, duas afirmações de Freud:
o   Primeira, é que os sonhos não são absurdos mas possuem um sentido;
o   Segunda, é que os sonhos são realizações de desejos.
·         Enquanto fenômenos psíquicos, os sonhos são produções e comunicações da pessoa que sonha, e é através do relato feito pelo sonhador que tomamos conhecimento dos seus sonhos.
·         O que é interpretado psicanaliticamente não é o sonho, mas o seu relato.
·         Por outro lado, o relato do sonho nos parece ininteligível assim como ao próprio sonhador.
·         O pressuposto de Freud é que a pessoa que sonha sabe o significado do seu sonho, apenas não sabe que sabe, e isso ocorre porque a censura a impede de saber .
·         Primeira das afirmações: a de que os sonhos possuem um sentido.
·         Devo afirmar, escreve Freud: “que os sonhos têm realmente um sentido e que um método científico de interpretá-lo é possível”.
·         A razão disso reside no fato de o sonho ser sempre uma forma disfarçada de realização de desejos e que nessa medida incide sobre ele uma censura cujo efeito é a deformação onírica.
·         O sonho que recordamos após o despertar e que relatamos ao intérprete foi submetido a uma deformação cujo objetivo é proteger o sujeito do caráter ameaçador dos seus desejos.
·         O sonho se inscreve portanto em dois registros:
o   O que corresponde, ao sonho lembrado e contado pela pessoa;
o   E um outro oculto, inconsciente, que pretendemos atingir pela interpretação.
·         Ao material do primeiro, Freud chama conteúdo manifesto do sonho, e ao do segundo dá o nome de pensamentos oníricos latentes.
·         Encontrar o sentido de um sonho é percorrer o caminho que nos leva do conteúdo manifesto aos pensamentos latentes, e o procedimento que nos permite isso é a interpretação.
·         Convém, recordarmos, porém, que o que se interpreta não é o sonho sonhado, mas o relato do sonho.
·         O que se oferece à interpretação são enunciados, e estes deve ser substituídos pelo analista por outros enunciados, mais primitivos e ocultos, que seriam a expressão do desejo do paciente.
·         Essa é a razão pela qual Freud distingue dois métodos de interpretação anteriores àquele que ele via apresentar A interpretação de sonhos:
o   O método da interpretação simbólica;
o   O método da decifração.
·         O método da interpretação simbólica: considera o sonho como uma totalidade, procurando substituí-lo por outro que lhe seja análogo e inteligível;
·         O método da decifração: considera o sonho em seus elementos constituintes, cada um dos quais funcionando como um sinal criptográfico que deve ser substituído por outro, segundo uma chave fixa.
·         O segundo método tem por defeito principal a questão da confiabilidade da “chave” de interpretação (algo análogo a um dicionário de sonhos), além de ignorar os mecanismos de deslocamento e condensação que veremos mais à frente. É, porém, desse segundo método que a psicanálise vai se aproximar mais.
·         Os significantes são, pois, tributários de uma sintaxe que não lhes pertence ou pelo menos que não pertence ao sistema Pré-consciente/Consciente.
·         São as distorções a que os pensamentos oníricos latentes são submetidos que vão nos servir de meio para chegarmos à sintaxe do Inconsciente.
·         Sabemos o quanto, para Freud, a linguagem, longe de ser o lugar transparente da verdade, é o lugar do ocultamento.
·         Enquanto o discurso chamado racionalista procurava afastar o desejo para que a verdade pudesse aparecer na sua pureza essencial, a psicanálise vai procurar exatamente a verdade do desejo.
·         Sua função é fazer aparecer o desejo que o discurso oculta, e esse desejo é o da nossa infância, com toda a carga de interdições a que é submetido.
·         O único modo desse desejo aparecer, de transpor a barreira imposta continuamente pela censura, é de uma forma distorcida, cujo exemplo privilegiado é o sonho manifesto.
·         O sonho manifesto, assim como os sintomas, são o efeito de uma distorção cuja causa é a censura.
·         É a esse trabalho de distorção que Freud dá o nome de “elaboração onírica” ou “trabalho do sonho”.
·         Freud compara a censura dos sonhos à censura da imprensa. Esta opera de duas maneiraa:
o   Sobre o texto já pronto ou
o   Sobre sua elaboração
·         A censura dos sonhos funciona de maneira análoga.
·         As partes omitidas do sonho ou aquelas que aparecem de forma estranhamente confusa são os indícios de sua ação.
·         O trabalho que transforma os pensamentos latentes em conteúdo manifesto, impondo-lhe uma distorção que os torna inacessíveis ao sonhador, é o que Freud chama de elaboração onírica.
·         O trabalho inverso, que procura chegar ao conteúdo latente partindo do manifesto que visa decifrar a elaboração onírica, é o trabalho de interpretação.
·         A interpretação é, pois, o oposto simétrico da elaboração onírica. Enquanto esta tem por objetivo impor uma cifra aos pensamentos oníricos, a interpretação tem por objetivo o seu deciframento.
·         Freud aponta quatro mecanismos fundamentais do trabalho do sonho;
o   Condensação;
o   Deslocamento;
o   Figuração;
o   Elaboração secundária.
·         A condensação diz respeito ao fato de o conteúdo manifesto do sonho ser menor do que o conteúdo latente, isto é, de o conteúdo manifesto ser uma “tradução abreviada” do latente. O inverso não se dá nunca; jamais o conteúdo manifesto pode ser maior do que o latente. A condensação pode operar de três maneiras:
o   Primeiro: omitindo determinados elementos do conteúdo latente;
o   Segundo: permitindo que apenas um fragmento de alguns complexos do sonho latente apareça no sonho manifesto;
o   Terceiro: combinando vários elementos do conteúdo latente que possuem algo em comum num único elemento do conteúdo manifesto.
·         O mecanismo de condensação não ocorre apensa nos sonhos, ele também está presente no dito espirituoso, nos lapsos, nos esquecimentos de palavras etc.
·         Um exemplo de condensação no sonho pode ser dado pelo fato de uma pessoa do sonho manifesto poder estar representando várias pessoas do conteúdo latente. Assim essa pessoa do sonho manifesto pode ser parecida com a pessoa.
·         Características pertencentes a quatro pessoas distintas podem estar reunidas numa única pessoa do sonho manifesto.
·         O deslocamento: tal como a condensação, o deslocamento é obra da censura dos sonhos, e opera basicamente de duas maneiras:
o   Primeira: pela substituição de um elemento latente por um outro mais remoto que funcione em relação ao primeiro como uma simples alusão;
o   Segundo: é quando o acento é mudado de um elemento importante para outros sem importância, é uma forma de descentramento da importância. (a história do ferreiro e três alfaiates).
·         A figuração ou consideração à figurabilidade: consiste na seleção e transformação dos pensamentos do sonho em imagens. Freud chama atenção para o fato de que essa transformação não afeta a totalidade dos pensamentos oníricos; alguns deles conservam sua forma original e aparecem no sonho manifesto também como pensamentos. Esse mecanismo é, por si só, um dos responsáveis pela distorção resultante da elaboração onírica.
·         Elaboração secundária: consiste numa modificação do sonho a fim de que ele apareça sob a forma de uma história coerente e compreensível. A finalidade da elaboração secundária é fazer com que o sonho perca sua aparência de absurdidade, aproximando-o do pensamento diurno.
·         Os mecanismos de elaboração do sonho, particularmente a condensação e o deslocamento: nos remetem a uma questão cuja importância foi ressaltada pelo próprio Freud e que hoje em dia transformou-se em objeto privilegiado de estudo: a questão da sobredeterminação e, como decorrência, a questão da superinterpretação.

SOBREDETERMINAÇÃO E SUPERINTERPRETAÇÃO

·         O sentido de um sonho nunca se esgota numa única interpretação, e isso porque todo sonho é sobredeterminado, isto é, um mesmo elemento do sonho manifesto pode nos remeter a séries de pensamento latentes inteiramente diferentes.
·         A sobredeterminação não é uma característica apensa dos sonhos mas de qualer formação do inconsciente.
·         Estas nos remetem sempre a uma pluralidade de fatores determinantes, tornando impossível esgotarmos o sentido de um sonho ou de um sintoma numa única explicação.
·         A sobredeterminação atinge tanto o sonho considerado como um todo, como seus elementos considerados isoladamente, e isso acontece porque o sonho é construído a partir de uma massa de pensamentos oníricos na qual aqueles elementos que possuem articulações mais fortes e numerosas passam a formar o conteúdo onírico.
·         A sobredeterminação diz respeito à relação do conteúdo manifesto com os pensamentos latentes e não aos pensamentos latentes entre si.
·         O problema da sobreterminação já existia para Freud desde a época dos Estudos sobre a Histeria. Nessa época, ele já afirmava que a gênese das neuroses é sobredeterminada, isto é, que vários fatores devem convergir para a sua formação. Essa multiplicidade de fatores pertencia a duas ordens distintas: uma que se referia às predisposições constitucionais, e outra que dizia respeito à pluralidade dos acontecimentos traumáticos.
·         Volto a lembrar que, apesar de Freud ter desenvolvido o problema da sobredeterminação mais a nível dos processos oníricos, ela se aplica a toda a formação do inconsciente e não apenas aos sonhos e aos sintomas.
·         A questão da sobreterminação nos remete diretamente à questão da superinterpretação. Esta diz respeito a uma segunda interpretação que se sobrepõe à primeira e que nos fornece um outro significado do sonho distinto daquele que foi obtido pela interpretação original.
·         A superinterpretação não ocorre em virtude de ter a primeira e que nos fornece um outro significado do sonho distinto daquele que foi obtido pela interpretação original.
·         A superinterpretação não ocorre em virtude de ter a primeira interpretação sido malfeita ou por ter revelado de forma incompleta o sentido do sonho.
·         Mesmo que a primeira interpretação tenha sido correta, ela se reveste de uma incompletude que lhe é essencial, e isso não porque ela tenha sido incompleta, mas pela natureza sobredeterminada do sonho. A rigor, não há interpretação completa (e isso não apenas pela sobredeterminação do sonho, como veremos mais à frente).
·         O emprego que Freud faz da noção de superinterpretação não é, porém, muito precisa. Assim é que ela tanto pode aplicar-se aos sonhos pelo seu caráter sobredeterminado, como pode ser decorrente do fato de o analisando apresentar novas associações ao material oferecido originalmente ao analista. No primeiro caso, a superinterpretação é imposta pela elaboração onírica; no segundo ela é importa pela multiplicação do material associativo.
·         Esse caráter de inacabamento essencial da interpretação não decorre de uma deficiência do método, mas é constitutivo dele. Significa, sobretudo, que não há começo nem fim absolutos, que não há uma verdade essencial e imutável a ser descoberta, e, mais do que tudo, que não há sentido sem interpretação, assim com não há interpretação sem sentido.
·         Sentido e interpretação não são duas realidades exteriores entre sim e que se encontram na situação analítica, eles não possuem nenhuma existência prévia quando considerados isoladamente.
·         Não há sentido original, todo sentido já é uma interpretação, assim como toda interpretação é uma forma de constituição de sentido.
·         Em duas passagens exemplares da A interpretação de sonhos, Freud faz referência  ao fato de que “existe pelo menos um ponto em todo sonho no qual ele é insondável – um umbigo, por assim dizer, que é seu ponto de contato com o desconhecido”
·         A aproximação a esse “umbigo do sonho” é a aproximação ao ponto de ruptura da própria interpretação.
·         Há ainda um outro aspecto da sobredeterminação e da superinterpretação que deixei deiberadamente para o fim: é aquele decorrente do simbolismo inerente ao sonho. Deixarei esse aspecto para ser examinado num item à parte.
·         A razão dessa separação é que a sobredeterminação do simbolismo do sonho não é decorrente da elaboração onírica, mas um produto da própria cultura.

O SIMBOLISMO NOS SONHOS

·         A questão do simbolismo nos sonhos não recebeu, de início, grande importância por parte de Freud e foi graças à influência de Wilhelm Stekel que ele se propôs reformular sua apresentação inicial do tema, introduzindo na quarta edição de A interpretação de sonhos (1914) uma nova seção sobre o simbolismo.
·         Etimologicamente, a palavra “símbolo” vem do grego (symbolon) e era empregada, dentre outras maneiras, para designar as duas metades de um objeto partido que se aproximavam.
·         Esse significado etimológico é interessante por indicar que, desde suas origens, o emprego do termo já era feito não no sentido de expressar uma qualidade de objeto, mas uma relação, e, mais ainda, o símbolo já era, desde Aristóteles, visto como um signo convencional (não natural).
·         É nessa natureza convencional do símbolo que, para além das divergências teóricas, pode ser apontada como sua característica fundamental.
·         Tomemos como referencial a distinção feita por Peirce entre ícones, índices e símbolos.
·         Todos três são signos, e um signo é considerado por ele como sendo aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa alguma coisa (seu objeto).
·         Um signo é denominado índice (ou sinal) quando mantém uma relação direta com o objeto que ele representa.
·         Um signo é denominado ícone quando sua relação com o objeto é arbitrária ou convencional, isto é, não natural.
·         Ao contrario dos índices e dos ícones, os símbolos “não são procuradores de seus objetos, mas veículos para a concepção de objetos.
·         Isso quer dizer que um símbolo não indica nenhuma coisa em particular; ele apenas denota uma espécie de coisa.
·         É esse caráter arbitrário do símbolo que faz com que ele seja tomado num sentido mais ou menos amplo. O termo “arbitrário” referido ao símbolo não designa gratuidade ou ausência de ordem, mas o fato de que o símbolo não pertence ao universo físico ou biológico e sim ao universo do sentido. Ele é arbitrário ou convencional porque é natural.
·         O primeiro emprego que Freud faz da noção de símbolo é em seu artigo de 1894: As neuropsicoses de defesa.
·         Utiliza-o como sinônimo de “sintoma mnêmico” ou “sintoma histérico”, querendo com isso dizer que o fenômeno em questão funciona como “símbolo” de uma traumatismo patogênico.]
·         Ao apresentar o caso de Elizabeth Von R., Freud escreve que poderíamos supor “que a paciente fizera uma associação entre as suas impressões mentais dolorosas e as dores corporais que sentia, e que agora, em sua vida de lembranças, estava usando suas sensações físicas como símbolo das mentais.
·         Fica claro, pelo exemplo, que Freud emprega o termo “símbolo” como sinônimo de “sinal”, ao fazer das lembranças de Elisabeth Von R. um mero sinal temporal de uma acontecimento traumático.
·         Paralelamente a esse primeiro emprego da noção de símbolo, Freud faz uso do mesmo termo com um sentido que já demonstra certa independência com relação ao de “símbolo mnêmico”: é o que ele denomina “ato sintomático simbólico”, do qual nos oferece um excelente exemplo em A psicopatologia da vida cotidiana.
·         A diferença entre o ato sintomático simbólico e o símbolo mnêmico é que no primeiro podemos detectar uma analogia de conteúdo entre o signo e o referente, enquanto no segundo essa analogia não precisa estar presente.
·         Nos símbolos mnêmicos não existe qualquer semelhança entre o signo e o referente; o signo não expressa o ato traumático, apenas associa-se a ele temporalmente.
·         É, porém, em A interpretação de sonhos que Freud vai se referir a símbolos que se distinguem fundamentalmente dos referido antes.
·         A existência desses símbolos foi-lhe representados no sonho de forma semelhante, independentemente do sonhador.
·         A esses sonhos Freud chamou “sonhos típicos”.
·         Esses sonhos (e não apenas eles) lançam mão de símbolos já existentes e presentes no inconsciente de cada indivíduo.
·         Encontramos esses símbolos não apenas nos sonhos, mas na arte, nos mitos, na religião, e sua característica básica é a constância da relação entre o símbolo e o simbolizado, relação essa que pode ser de forma, de função, de ritmo etc.
·         Freud chama a esses símbolos “elementos mudos” do sonho, pois sobre eles o paciente é incapaz de fornecer associações.
·         A existência desses símbolos nos sonhos faz com que sejam exigidas duas formas distintas de interpretação: uma que faz uso das associações fornecidas pelo paciente e outra que se exerce diretamente sobre os símbolos.
·         A razão disso está em que, no primeiro caso, a chave que permite ao intérprete decifrar o sentido do sonho é individual e pertence ao sonhador.
·         O único meio de burlar a censura e chegar ao significado oculto é através das associações que o sonhador realizar.
·         Não existe, nesse caso, código geral ou universal.
·         O código é privado.
·         No caso dos sonhos que empregam símbolos, o sonhador se serve de algo já pronto.
·         Apesar de o sonho ter sido uma produção sua, o símbolo utilizado pertence à cultura e seu significado transcende ao sonhador.
·         A interpretação nesse caso depende do conhecimento que o intérprete possui dos símbolos e não das associações fornecidas.
·         O corpo humano, os pais, os filhos, o nascimento e a morte, a nudez e a sexualidade, são campos privilegiados pelo simbolismo onírico.


O CAPÍTULO VII E A PRIMEIRA TÓPICA

·         Devemos entender por isso que no capítulo VII Freud retoma um ponto de vista “metapsicológico” e não que entre o Projeto e A interpretação de sonhos exista uma linha teórica continua.
·         A interpretação de sonhos fala do desejo e de ideias investidas. Uma outra diferença fundamental entre os dois textos é ausência completa de qualquer referencial anatômico em A interpretação de sonhos. A tópica do capítulo VII refere-se aos vários modos e graus de distribuição do desejo, sendo que os lugares aos quais ele se refere são lugares metafóricos e não lugares anatômicos.
·         Permanece, no entanto, inabalável a afirmação de que os lugares a que se refere a concepção tópica são lugares psíquicos.
·         O núcleo essencial do texto permanece sendo, porém, o que ficou conhecido como constituindo a 1ª Tópica freudiana, isto é, a concepção do aparelho psíquico formado por instâncias ou sistemas:
·         O sistema inconsciente
·         O pré-consciente
·         Consciente
·         Esse “Aparelho” é orientado no sentido progressivo-regressivo e é marcado pelo conflito entre os sistemas, o que torna a concepção tópica inseparável da concepção dinâmica.
·         É no item B, (“Regressão) do capítulo VII que Freud apresenta, pela primeira vez, sua tópica do aparelho psíquico.
·         No entanto, a tópica freudiana escapa a esse tipo de empreendimento, já que os lugares de que ela trata não são lugares físicos, não podem ser localizados anatomicamente e não possuem nenhuma realidade ontológica. Podemos mesmo dizer que a tópica freudiana importa menos pelos lugares que ela estabelece do que pela direção do funcionamento do aparelho.
·         O que em primeiro lugar essa tópica pretende expressar é o sentido progressivo-regressivo do funcionamento do aparelho psíquico, e é nessa medida que o conceito de regressão se impõe como conceito fundamental nesse momento da teoria psicanalítica.
·         O aparelho psíquico é, portanto, formado por sistemas cujas posições relativas se mantém constantes de modo a permitirem um fluxo orientado num determinado sentido. O que importa relativa que cada um mantém com os demais.
·         A primeira representação do aparelho psíquico seria, pois, a de um conjunto formado por dois sistemas:
·         Um que receberia os estímulos e que ficaria localizado na extremidade sensória do aparelho (Sistema perceptivo – Pept), e
·         Outro sistema que ficaria localizado na extremidade motora e que daria acesso à atividade motora (Sistema motor – M).
·         A razão mais imediata para a sua modificação era a de que as percepções deixavam traços de memória na extremidade sensória e estes traços eram considerados por Freud como modificações permanentes dos elementos do sistema. Como o mesmo sistema não poderia reter modificações e continuar sempre aberto à percepção, isto é, como ele não poderia desempenhar, simultaneamente, as funções de percepção e de memória, impunha-se uma distinção entre a parte responsável pela recepção dos estímulos (Pept) e a parte responsável pelo armazenamento dos traços (Mnem).
·         Assim, um sistema (Pept), situado na frente do aparelho psíquico, recebe os estímulos perceptivos, mas não os registra nem os associa, isso porque ele necessita ficar permanentemente aberto aos novos estímulos, o que seria impossível se ele desempenhasse também as funções de armazenamento e de associação. Essas funções ficam reservadas aos vários sistemas mnêmicos que recebem as excitações do primeiro sistema e as transformam em traços permanentes.
·         As associações entre os traços ocorre apenas no interior dos sistemas mnêmicos. Uma associação ocorre tanto pela diminuição das resistências quanto pelo estabelecimento de caminhos facilitadores. Quando isso acontece, uma excitação é mais prontamente transmitida de um elemento Mnen a outro.
·         Esse foi o momento em que o termo “Inconsciente” deixou de ser empregado como adjetivo, designando a propriedade daquilo que estava fora do campo atual da consciência, para ser empregado como substantivo (das Unbewusste), designando um sistema do aparelho psíquico.
·         A substituição da noção descritiva de inconsciente pelo conceito sistemático é um dos momentos fundamentais da construção teórica de Freud.
·         Já foi dito que a representação esquemática do aparelho psíquico apresentada por Freud não pretende ser a transcrição de nenhuma estrutura anatômica existente, mas sim uma construção topológica que visa oferecer uma descrição do funcionamento do aparelho.
·         O sistema Ics só pode ter acesso à consciência através do sistema Pcs/Cs.
·         Qualquer que seja o conteúdo do Ics, ele só poderá ser conhecido se transcrito – e portanto modificado e distorcido – pela sintaxe do Pcs/Cs.
·         É no Ics que Freud localiza o impulso à formação dos sonhos.
·         O desejo inconsciente liga-se a pensamentos oníricos pertencentes ao Pcs/Cs e procura uma forma de acesso à consciência, graças à diminuição da censura durante o sono.
·         Enquanto na vigília o processo de excitação percorre normalmente o sentido progressivo, nos sonhos e nas alucinações a excitação percorre o caminho inverso, isto é, caminha no sentido da extremidade sensória até atingir o sistema Pept, produzindo um reinvestimento de imagens mnêmicas.
·         É a esse caminho “para trás” da excitação que Freud dá o nome de “regressão”.

REGRESSÃO

·         A noção de regressão não é nova, ela é anterior a Freud, e mesmo em Freud ela é anterior à elaboração de A interpretação de sonhos.
·         Dá-se a regressão “quando, num sonho, uma ideia é novamente transformada na imagem sensorial de que originalmente se derivou”, isto é, quando reproduz alucinatoriamente a experiência original.
·         Se o sonho é um fenômeno regressivo, e se a regressão é uma “volta atrás” da excitação, concluímos que, ao retornar da extremidade motora do aparelho até a extremidade sensória atingindo o sistema perceptivo, ela passa do Pcs/Cs para o Ics, onde as relações lógicas dominantes no Pcs/Cs não possuem nenhum valor.
·         Segundo a concepção freudiana, as relações lógicas que comandam os processos conscientes não estão presentes nos primeiros sistemas mnêmicos, nem no Ics, mas no Pcs/Cs.
·         Dessa forma, “na regressão, a contextura dos pensamentos oníricos é reduzida à sua matéria-prima.
·         Visto como um fenômeno regressivo, o sonho é o resultado da atração exercida pelas marcas mnêmicas das experiências infantis que lutariam por encontrar uma expressão atual na consciência.
·         É o próprio Freud quem chama atenção para o fato de que a noção de regressão não é um conceito explicativo, mas sim uma noção descritiva e que, mesmo sob essa forma, ela não designa um fenômeno unitário.
·         Aos poucos, ele vai diferenciando a noção até distinguir, num acréscimo feito em 1914 a A interpretação de sonhos, três espécies de regressão:
·         A tópica
·         A temporal
·         A formal
·         Em seu sentido tópico, a regressão é o retorno da excitação, através dos sistemas que compõem o aparelho psíquico, do Pcs/Cs para o Ics.
·         A regressão temporal designa o retorno do indivíduo a estruturas psíquicas mais antigas.
·         A regressão formal designa a passagem a modos de expressão mais primitivos, isto é, menos estruturados.
·         Na verdade, as três espécies de regressão se implicam mutuamente, a ponto de podermos dizer que são, no fundo, apenas uma, pois o que é mais antigo no tempo é,l em geral, mais primitivo na forma e está mais próximo da extremidade perceptiva.
·         Uma característica importante a ser ressaltada na noção de regressão nos sonhos é a extensão que Freud faz dela do plano individual para o coletivo. Assim, no sonho não ocorre apenas uma regressão à infância do indivíduo, mas à própria infância da espécie.
·         É nesse ponto que o sonho se encontra com o mito, ambos sendo expressões dissimuladas do desejo.

A REALIZAÇÃO DE DESEJOS

·         No início deste capítulo eu disse que centraria minha exposição sobre a Traumdeutung em duas afirmações de Freud:
·         A de que os sonhos possuem um sentido e
·         De que os sonhos são realizações de desejos.
·         É chegado, pois, o momento, pois, o momento de colocarmos a pergunta feita por Freud no capítulo VII: de onde se originam os desejos que se realizam nos sonhos? Talvez essa pergunta devesse ser precedida de uma outra: o que é um desejo?
·         O desejo é como certos personagens importantes de uma peça ou de um filme; sua entrada em cena requer uma preparação prévia do espectador, a criação de um clima que valorize o momento de seu aparecimento.
·         Como ponto de partida, podemos dizer que um desejo é uma ideia, ou um pensamento; algo completamente distinto, portanto, da necessidade e da existência.
·         O desejo se dá ao nível da representação tendo como correlato os fantasmas (fantasias), o que faz com que, contrariamente à pulsão (Trieb) – que tem de ser satisfeita – o desejo tenha de ser realizado.
·         Para Aristóteles, um sonho é o pensamento que persiste no estado de sono.
·         O que Freud nos mostrou foi que esses pensamentos, por exigência da censura, são deformados pela elaboração onírica, que, além da condensação e do deslocamento, lança mão da figuração, o que torna os pensamentos oníricos irreconhecíveis para a consciência.
·         É esse material ideativo que constitui o conteúdo latente do sonho, que, transformado pela elaboração onírica, vai aparecer como conteúdo manifesto.
·         Entretanto, o pensamento que constitui a matéria-prima do sonho não é portador apensa de um sentido, mas também de um valor.
·         O desejo diz respeito sobretudo ao valor sentido. Temos de distinguir, contudo, o desejo do sonho do desejo de dormir.
·         Já fiz referência ao fato de que para Freud o sonho serve ao sono: os sonhos são coisas que eliminam, pelo método da satisfação alucinatória, estímulos (psíquicos) perturbadores do sono. Enquanto o desejo de dormir pertence ao Pcs/Cs, o desejo do sonho pertence ao Ics e é necessariamente infantil.
·         Voltemos, pois, à pergunta inicial: de onde se originam os desejos que se realizam nos sonhos? Freud aponta, inicialmente, três origens possíveis:
o   Restos diurnos não satisfeitos. Trata-se de desejos que foram despertados durante o dia e que por algum motivo externo não foram satisfeitos.São desejos pertencentes ao Pcs/Cs.
o   Restos diurnos recalcados. São desejos que surgiram durante o dia, mas que, em vez de terem sido impedidos por causas externas, foram suprimidos. Nesse caso, são desejos pertencentes ao Pcs/Cs que foram transferidos para o Ics.
o   Desejos que nada têm que ver com a vida diurna, mas que pertencem ao Ics e emergem durante o sono. A essas três origens, Freud acrescenta uma quarta fonte de desejos oníricos que são os impulsos decorrentes de estímulos noturnos (fome, sede, sexo etc).
·         Um desejo que ficou insatisfeito durante o dia pode, quando muito, contribuir para o induzimento de um sonho, mas será incapaz, ele apenas, de produzir um sonho.
·         Os únicos desejos capazes de produzir um sonho são aqueles que pertencem ao Ics. Para que um desejo pré-consciente funcione como induzidor de um sonho, faz-se necessário que ele se apoie sobre um desejo inconsciente.
·         Os desejos provenientes do sistema inconsciente encontram-se em permanente disposição para uma expressão consciente, no que são impedidos pela censura.
·         Esta, no entanto, pode ser burlada na medida em que o desejo inconsciente transfira sua intensidade para um impulso do consciente cujo conteúdo ideativo funcione apenas como indicador do desejo original.
·         Uma das características fundamentais do desejo inconsciente, assim como de qualquer conteúdo do Ics, é a indestrutibilidade.
·         A nível de sistema inconsciente, o passado se conserva integralmente, e como o sonho é um fenômeno regressivo, são os desejos mais infantis os que funcionam como induzidores permanentes de seus conteúdos.
·         É o seguinte o caminho percorrido pelo desejo na formação do sonho:
o   Um desejo inconsciente, tendo efetuado uma transferência para os resíduos diurnos, abandona o Ics e penetra no Pcs/Cs, seguindo um sentido progressivo em direção à consciência. Esse avanço é, no entanto, detido pelo sono do Pcs/Cs, que impede sua expressão consciente.
·         Mas, se o sonho é uma realização de desejos, como explicar o fato de que há sonhos desagradáveis, sonhos que provocam ansiedade e que podem levar ao despertar por serem intoleráveis para o sonhador? Em primeiro lugar, temos de levar em consideração o fato de que a elaboração onírica nem sempre obtém sucesso completo na realização de desejos.
·         Há, no entanto, um outro aspecto da questão que frequentemente não é levado em conta e que é da maior importância: quando se afirma que um sonho é uma realização de desejos e que a realização de um desejo deve provocar prazer, não fica esclarecido o seguinte: a quem o sonho deve proporcionar prazer? A resposta óbvia e imediata é: ao sonhador.
·         As exigências do Ics não são as mesmas do Pcs/Cs. O mesmo acontecimento pode provocar prazer a nível do sistema inconsciente e ansiedade a nível do sistema pré-consciente. Há, portanto, dois desejos que devem ser satisfeitos: o do Ics e do Pcs/Cs, e eles nunca estão de acordo.
·         Dessa maneira, os sonhos desagradáveis são também realizações de desejos. Seu caráter desagradável vem do fato de que seu conteúdo escapou, em parte, à ação da censura, deixando aflorar um desejo inconsciente que, por ser inaceitável para a consciência, produziu ansiedade.
·         Freud chama atenção ainda para os sonhos de punição.
·         Também eles são desagradáveis e, no entanto, correspondem à realização de desejos: o desejo do sonhador de se punir por ter um desejo proibido.
·         Além do mais, como salienta Freud, a punição é também a realização de um desejo: do desejo de outra pessoa, a que censura.
·         Um sonho de punição seria um sonho no qual o desejo elaborador não seria proveniente do Ics, mas um desejo pertencente ao ego – inconsciente mas não pertencente ao sistema Ics, cujo objetivo é punir o desejo inconsciente, que é a fonte originária do sonho. Vinte e três anos mais tarde, Freud chamaria a instância que exerce esse policiamento do desejo de “superego”.
·         O aparelho psíquico de que estamos falando atém agora não surge pronto e acabado em seus mínimos detalhes. Freud supõe que somente após um longo período de desenvolvimento ele atinge o ponto de perfeição atual.
·         Freud conclui que essa atividade psíquica original tinha por objetivo produzir uma identidade perceptiva. Acontece, porém, que essa identidade perceptiva obtida pelo caminho da regressão produz necessariamente a decepção, pois o objeto é alucinado e não real, persistindo portanto o estado de necessidade.
·         Os sonhos são uma amostra atual desse modo primitivo de funcionamento do aparelho psíquico.
·         O que eles fazem é realizar desejos produzindo uma satisfação alucinatória através do caminho regressivo. É nesse sentido que Freud afirma ser o sonho um pedaço da vida mental infantil que foi suplantado, ou melhor ainda, que foi banido para a noite.
·         Mas não é apenas durante a noite que esse modo de funcionamento do aparelho psíquico faz seu aparecimento; a psicose é a sua face diurna.
·         Quando na vida de vigília ocorre uma redução da censura crítica para além do limite considerado normal, o caminho que conduz as excitações inconscientes até a consciência e a motilidade permanece aberto, produzindo a regressão alucinatória.
·         Assim é que Freud repete a frase de Hughlings Jackson: “Descubra-se tudo sobre os sonhos e ter-se-á descoberto tudo sobre a loucura”.
·         Os sonhos, a loucura e os sintomas neuróticos obedecem à mesma forma de produção, podendo todos ser vistos como formas distorcidas de realizações de desejos inconscientes ou, pelo menos, como expressão do conflito entre esses desejos e a estrutura mental que reage a ele.

O RECALCAMENTO

·         Nos itens anteriores, a ênfase foi dada ao caráter orientada, no sentido progressivo-regressivo, do funcionamento do aparelho psíquico; agora o que importa pensar é como esse aparelho funciona em termos de forças e de conflito de forças.
·         Essa energia de investimento reparte-se pelos sistemas Ics e Pcs/Cs, sendo que, enquanto o primeiro luta por se ver livre dela, o segundo procura inibir essa descarga livre impondo ao primeiro sistema restrições ao livre escoamento.
·         A razão dessa tendência para a descarga direta que caracteriza o modo de funcionamento do Ics reside no desprazer que resulta do acúmulo de energia no interior do sistema.
·         É aqui que Freud volta a uma das noções mais básicas da psicanálise, noção essa que vai ganhando cada vez mais relevo: a da experiência da satisfação.
·         O desprazer provocado pelo acúmulo de energia coloca o aparelho psíquico em ação, e o que ele visa a partir daí é repetir a experiência de satisfação que anteriormente acarretou uma diminuição da excitação e que foi sentida como prazerosa.
·         Acontece, porém, que a catexia alucinatória de uma lembrança não pode, por motivos óbvios, produzir satisfação, daí a necessidade de um outro sistema – o Pcs/Cs – cuja função é inibir o avanço da catexia mnêmica para impedir que ela reproduza alucinatoriamente a “percepção” do objeto.
·         Dessa forma, enquanto o sistema Ics dirige sua atividade no sentido de garantir a livre descarga da excitação acumulada, o Pcs/Cs procura transformar a catexia móvel do primeiro sistema em catexia quiescente.
·         Isso é possível na medida em que ele consiga desviar a excitação do Ics, alterando o mundo externo de modo a possibilitar uma satisfação indireta e parcial, porém tolerada por ele.
·         O que fica claro é que o modelo explicativo proposto por Freud está fundamentado não na procura do prazer, mas no evitamento do desprazer.
·         Essa talvez seja a razão principal de durante tanto tempos os termos “recalcamento” (Verdrängung) e “defesa” (Abwehr) terem sido usados quase que como sinônimos.
·         No entanto, é precisamente a partir de Traumdeutung que eles começam a ser empregados pelo próprio Freud de forma distinta: “defesa” designando uma operação mais específica cuja essência consiste em manter afastado no inconsciente representações ligadas a uma pulsão.
·         O modelo do recalcamento oferecido por Freud é o do evitamento da lembrança, que não é mais do que uma repetição da fuga anterior à percepção penosa. No caso de o aparelho psíquico ser atingido por um estímulo que provoque uma excitação dolorosa, ocorrerá uma série de manifestações motoras que, apesar de inespecíficas, poderão afastar o estímulo causador da experiência desprazerosa.
·         Evitar a lembrança é um processo análogo à fuga da percepção. Esse mecanismo que é colocado em funcionamento através da memória é que Freud aponta como o modelo do recalcamento e que só pode ser efetuado pelo sistema Pcs/Cs, pois é a ele que pertence a função inibidora.
·         O sistema Ics não sabe dizer “não”, “ele é incapaz de fazer qualquer coisa que não seja desejar”; é ao segundo sistema que cabe a tarefa de impedir que a atividade do primeiro sistema resulte em desprazer.
·         Ocorre, porém, que o material recalcado exerce uma atração constante sobre os conteúdos do Pcs/Cs, em relação aos quais ele possa estabelecer uma ligação no sentido de escoar sua energia.
·         O papel do Pcs/Cs não pode ser, nem o de inibir completamente os impulsos inconscientes, pois isso provocaria um aumento de tensão insuportável a nível do Ics, nem o de permitir que esses impulsos venham todos à tona, o que seria igualmente desprazeroso. Sua função deverá ser a de dirigir, através dos caminhos mais convenientes, os impulsos impregnados de desejo que surgem do inconsciente.
·         Ao modo de funcionamento do aparelho psíquico, quando participar apenas o Ics, Freud chama processo primário, e, ao modo de funcionamento do Pcs/Cs, ela chama processo secundário.
·         O processo secundário é posterior e resulta de uma modificação do processo primário, sendo que jamais ocorre a substituição do primeiro pelo segundo, mas apenas um aumento crescente das exigências deste último em face do escoamento das excitações do primeiro.
·         A distinção entre processo primário e processo secundário corresponde, de um ponto de vista econômico, à distinção entre energia livre e energia ligada; a primeira procurando a descarga da maneira mais rápida e direta possível e tendendo à “identidade perceptiva”, isto é, procurando reinvestir as representações ligadas à experiência de satisfação de forma alucinatória, e a segunda escoando-se para a descarga de forma mais controlada e investindo de maneira mais estável as representações.
·         Aqueles processos psíquicos que aparecem a nós como irracionais são processos primários que não tiveram sua energia inibida pela catexia pré-consciente, enquanto outros, por representarem impulsos impregnados de desejos infantis incompatíveis com o pensamento secundário, foram recalcados.
·         O papel principal desse sistema consiste em dirigir da forma mais conveniente possível os impulsos impregnados de desejo que surgem do inconsciente.
·         Esses impulsos, como veremos mais à frente, não podem ser destruídos nem inibidos, e a liberação do afeto ligado a eles é que produz desprazer. Freud considera que a essência do processo de recalcamento consiste precisamente na transformação desse afeto.
·         Esse material recalcado faz seu “retorno” sob a forma de sintomas, sonhos, atos falhos etc. no caso dos sonhos, isso é facilitado pelo relaxamento do Pcs/Cs durante o sono, e a importância de que ele se reveste para Freud reside no fato de que, apesar de ser um processo psíquico normal, ele obedece aos mesmos mecanismos que produzem os sintomas neuróticos. Uma das últimas afirmações da Traumdeutung a que Freud concede relevo é: “A interpretação dos sonhos é a via real que leva ao conhecimento das atividades inconscientes da mente.

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